Nosso primeiro Renga – “Tarde de Verão”

09/10/2010

Tarde de verão
Início: 02.02.2010
Término: 04.10.2010

1.
Tarde de verão –
Que refrescante
O cheiro da chuva!

[ Celso Pestana ]

2.
A rede na varanda
Balançando retorcida.

[ José Marins ]

3.
A casa vazia.
O cachorro arranca as roupas
Que secam no varal.

[ Antonio Ezequiel ]

4.
Ecoam pela cidade
As vozes do trio-elétrico.

[ Paulo Franchetti ]

5.
Trilha de montanha
As dores das pernas somem
Ao som da cascata

[ Rosa Clement ]

6.
A imagem de um Buda
Ondula no espelho d’água.

[ Antonio Ezequiel ]

7.
Manhã azul –
O povo chega de metrô
À praça da Sé

[ Celso Pestana ]

8.
A plenos pulmões o pastor
Arrebanha novos fiéis.

[ Antonio Ezequiel ]

9.
Final do dia –
Tantas andorinhas,
Sob um céu de chuva!

[ Paulo Franchetti ]

10.
O gato sobre a mureta
anda pra lá e pra cá.

[ Benedita Azevedo ]

11.
Madrugada –
Chora na maternidade
o mais novo pai.

[ Chris Herrmann ]

12.
Alguém segue contente
pela neblina da cidade.

[ Solange Yokoyawa ]

13.
Caminho de casa –
O sol brilhando nas flores
Da acácia-mimosa.

[ Paulo Franchetti ]

14.
Na gangorra da praça,
a criança de cachecol

[ Jiddu Saldanha ]

15.
Domingo de outono-
a janela a ser aberta
mostrará algo novo?

[ Solange Yokoyawa ]

16.
De binóculo o vizinho
Vasculhando a vizinhança.

[ Benedita Azevedo ]

17.
Tanto mar…
Um cargueiro vai sumindo
Na linha do horizonte

[ Celso Pestana ]

18.
Cai a noite sobre as ondas,
piscam luzes dos faróis …

[ Guin Ga ]

19.
Um táxi corre
Por avenidas desertas –
O boêmio ronca.

[ Celso Pestana ]

20.
Ao amanhecer, um pássaro
que não para de cantar.

[ Rafael Noris ]

21.
Céu limpo –
Os olhos das vacas brancas
acompanhando a menina.

[ Solange Yokoyawa ]

22.
À sombra do cogumelo
o inseto se abriga.

[ Antonio Ezequiel ]

23.
Paineira florida
a mulher de sombrinha.
passa devagar.

[ José Marins ]

24.
No meio da tarde
súbito sopra o vento frio.

[ Carlos Viegas ]

25.
Rua de subúrbio –
Saem mães preocupadas
chamando seus filhos.

[ Guin Ga ]

26.
Vem do ninho o piado
à espera de alimento.

[ Chris Herrmann ]

27.
Névoa da manhã –
Aqui e ali o vulto branco
Do gado no pasto.

[ Paulo Franchetti ]

28.
Há sorrisos e covinhas
na Primeira Comunhão.

[ Chris Herrmann ]

29.
Almoço festivo
Roupas brancas das crianças
Manchadas de molho.

[ Carlos Viegas ]

30.
A passeata da paz
Na praia de Copacabana.

[ Celso Pestana ]

31.
Noite de primavera – –
Um desejo de abraçar
o filho que partiu.

[ Ceci Matsu ]

32.
Pela janela do quarto,
O perfume do lírio-branco.

[ Paulo Franchetti]

33.
A última página
do livro de cabeceira –
Silêncio e penumbras.

[ Chris Herrmann ]

34.
Passo o final do dia
Pensando no outro dia…

[ Rafael Noris ]

35.
Brinquedos no chão –
O avô sorri sozinho
tomando café.

[ Chris Herrmann ]

36.
Uma cigarra cantando
Vem aí outra estação.

[ Celso Pestana ]

Anúncios

Quarta Parte da tradução do capítulo Haikai e Poesia

14/07/2010

–Traduzido por Cristiane Geus–

Haikai by R.H. Blyth
Sessão III
Haikai e Poesia

How heavy the rain
On the kasa stolen
From the scarecrow Kyoshi

Que chuva pesada
Sobre o chapéu roubado
do espantalho

Vem de algum domínio primitivo de som que nos chama de volta para alguma coisa que perdemos, algumas lembranças que têm intimações de imortalidade nelas:

Quando ele ergueu sua cabeça e relinchou do fundo do peito, como sinos de vento ressoando intensamente, ela parecia ouvir os ecos de um outro mundo, mais sombrio, mais espaçoso, mais perigoso, mais esplêndido que o nosso, aquele que estava além dela, e era para lá que ela queria ir.

O poeta inglês diz isso, mas tudo isso já é intrínseco no haikai:

Night deepens,
And sleep in the villages;
Sounds of falling water. Buson

Madrugada,
E o descanso nas aldeias;
Soa como uma cascata d’água.

Para ouvir essas nuances de significados, é necessário não apenas uma total abnegação mas também uma sensibilidade aguçada. Na verdade, significa

Na tortura da mente mentir
Num êxtase incansável. Macbeth

Esta é a personalidade do extrovertido; o introvertido se expressa com mais moderação;

Discretas compaixões silenciosas
E perturbações suaves da mente
De múltiplas singularidades, diferenças
Percebidas nas coisas, onde para o olho desatento
Nenhuma diferença faz. (Prelude, I, 400)

Um exemplo da extrema delicadeza de percepção dos poetas japoneses:

The white Chrysanthemums
Seem higher than they are,
In the morning twilight. Yasen

O Crisântemo branco
Parece mais alto do que é,
Na luz da aurora.

O que a maioria das pessoas não percebe é que a poesia, assim como a religião e a moral, é algo contínuo; esta sensibilidade poética nunca cessa enquanto a vida existir. Emerson diz:

Demonstramos aquilo que somos. O caráter fala mais alto que a nossa vontade. Os homens pensam que demonstram suas virtudes ou seus defeitos somente pelas suas ações visíveis, e não percebem que a virtude ou o defeito emitem uma fragrância a todo momento.

A única coisa que um poeta de haikai evita, instintiva e conscientemente, é a poesia “explicativa”. O que Spengler fala dele mesmo como historiador pode ser tomado como um manifesto do poeta de haikai, o Estilo do Haikai:

Somos céticos em relação a toda e qualquer forma de pensamento que “explica” as coisas como causa e efeito. Deixamos as coisas falarem por elas mesmas, e nos restringirmos a compreender o Destino imanente nelas e a contemplar a forma de manifestações que nunca compreenderemos. O máximo que conseguiremos ater é puramente a descoberta de formas existentes, sem causa, sem propósito, fundamentando o inconstante quadro da natureza. (Group of the Higher Cultures, 3)

O poeta de haikai não apenas não se dispõe a entender qualquer coisa que ele ouve e vê, mas ele examina rigorosamente a tendência fatal da razão para julgar a totalidade das coisas.

Louco é quem espera que a nossa razão
possa transcorrer a via infinita
que tem uma substância em três pessoas:
Tende bom ânimo, Oh! raça humana.

Kamiji Yama:
Minha cabeça encostada
sobre ela mesma. Issa

Monte Kamiji é a colina consagrada no Pátio Interno do Santuário de Ise. Sem dúvida nenhuma, Issa acreditava que esse lugar era intrinsecamente sagrado, mas para poetas, qualquer lugar que tenha a sensação de ser, ou que foi percebido como um lugar santo, é também sagrado para eles, pois é o ato de pensar que o faz assim, o “pensamento” da humanidade feito até agora para eles pelos poetas.

O intuito do haikai é conferir às coisas a vida poética que elas já possuem por direito. Assim como na conduta moral, a matéria é indiferente; a qualquer hora, em qualquer lugar, qualquer coisa vale.

O que importa se tal coisa seja desse jeito ou daquele, de maneira que a forma que dão seja heróica ou poética?

Essa poesia das coisa não é algo sobreposto a elas, mas retirado delas como o sol e a chuva retiram a tenra folha do botão rígido. Existe uma poesia independente da rima e do ritmo, da onomatopéia e da concisão poética, da cadência e do paralelismo, de toda e qualquer forma. É inexprimível e impensável até mesmo quando expressado em palavras e noções, e vive uma vida separada daquela chamada poesia. É o ato de ver que acontece quando uma borboleta branca bate as asas perto de nós e voa em direção ao vale, para nunca mais voltar:

Eis que faço nova todas as coisas.

Mas não somente as coisas belas da vida, nem mesmo a beleza das coisas belas, mas seu significado, o papel que desempenham no todo, a fluência da sua atividade, se de raio ou de aparente rochas eternas, devem ser o objeto do haikai. Marcus Aurelius diz:

Assim também as espigas de milho curvadas para a mãe terra, a sobrancelha despenteada do leão, a espuma escorrendo das mandíbulas do javali, e incontáveis objetos do mesmo tipo, por eles mesmos, estão longe o suficiente da beleza, apesar de ainda serem efeitos das ações da natureza, servem para orna-la, e alegram o coração do espectador.

O desenvolvimento da poesia deve ser em duas direções extremas, alargando sua extensão para o longínquo e para o perto; para o infinito e para o finito.

A lua no riacho brilha sobre a brisa no pinheiral.

Isso requer uma certa imprecisão “Shelleyana” da visão para compreendê-la em seu verdadeiro sentido concreto.

O cavalo branco adentra as flores brancas do juncal.

A brancura sempre nos conduz em direção ao absoluto.

Among the grasses,
A flower blooms white,
Its name unknown. Shiki

Em meio a relva,
Nasce uma flor branca,
De nome desconhecido.

Por outro lado, a poesia deve dar voz às coisas mais inarticuladas:

Hal. Via, Compadre Dull; não disseste uma só palavra todo esse tempo.

Dull. Não entendi nenhuma, senhor.

Hal. Allons, vamos dar-te ocupação.

Dull. Arranjarei uma, dançando; ou então tocarei tambor para que os Heróis dancem a quadrilha.

Hal. Entediante, leal Dull, vamos às armas.

Em seus contos, O. Henry, e mesmo Ring Lardner, consideraram os indivíduos inarticulados que compõem “a multidão de muitas cabeças” tão expressivos das suas vidas interiores quanto Hamlet ou Macbeth. Entretanto, o esforço de ampliar a abrangência do haikai freqüentemente tem sido feito, nem tanto de alguma necessidade sentida conscientemente para incluir todas as coisas, mesmo as mais obstinadas, sob a influência da poesia, ou o desejo de ver tudo em tempo sub specie aetermitatis, mas porque os poetas se cansaram de dizer a mesma coisa sobre o mesmo limitado tema de assuntos. Uma maneira de reviver a poesia é alargar as relações do tema. Numa carta ao seu aluno Kitô, Buson diz que em relação às flores da ameixeira, os poetas esgotaram seus aspectos convencionais, e novos esforços devem ser empreendidos para obter novos significados deles. Ele em seguida cita seus próprios versos para mostrar o que ele quer dizer pelo estilo antigo e novo de pensamento poético.

Poemas do modo habitual de pensar:

O morcego bate as asas e rodopia
Na lua
sobre as flores da ameixeira.

As flores da ameixeira caindo,
Madrepérola
esparramada sobre a mesa.

Terceira parte da tradução do capítulo Haikai e Poesia

14/07/2010

–Traduzido por Cristiane Geus–

Haikai by R.H. Blyth
Sessão III
Haikai e Poesia

Conta-se a seguinte estória sobre essa criação de Bashô:

The old pond;
A frog jumps in, –
The sound of the water.

O velho lago;
Uma rã mergulha, –
O barulho da água.

A autenticidade do relato abaixo é duvidosa e de certa maneira, destroi a simplicidade e aparente espontaneidade do original. De fato, percebe-se uma tendência de extrair do inconsciente e do instintivo o que deveria ser deixado lá, um tipo de formalidade artificial e esotérica que chega a ser repugnante à mente poética. Apesar disso, é uma ilustração de como Zen e haikai estão relacionados, e mostra também um certo tipo de tendência de pensamento poético que tem acompanhado o haikai desde o aparecimento de Bashô.

Bucchô, do Templo Komponji, um monge com profundo conhecimento e um alto nível de realização espiritual, tornou-se o mestre de Bashô. Ao mudar-se para o Templo Chôkeiji, em Fukagawa próximo a Edo, visitou o poeta acompanhado de um homem chamado Rokuso Gohei. O último, ao entrar na habitação do eremita, exclamou, “Como é a Lei Budista nesse jardim tranquilo com suas árvores e plantas?”

Bashô respondeu, “Folhas grandes são grandes, folhas pequenas são pequenas.”

Então Bucchô ao entrar perguntou, “O que você aprendeu recentemente?”

Bashô respondeu, “Respingos de chuva, o musgo verde está viçoso.”

Bucchô continuou perguntando: “Que Lei Budista é essa, antes que o musgo verde começasse a brotar?”

Naquele exato momento, ao ouvir o som de uma rã pulando dentro da água, Bashô exclamou: “O barulho da rã pulando na água”.

Bucchô ficou muito admirado com a resposta, e a considerou como uma prova do grau de discernimento de Bashô. Nesse momento, Sampú parabenizou respeitosamente Bashô por compor este verso, reconhecido por Bucchô, adicionando à arte a glória da religião; Ransetsu disse: “Pode-se dizer que essa setença do som da água representa perfeitamente o significado do haikai, contudo, a primeira parte do verso está faltando. Por favor, complete-a”. Bashô respondeu: “Eu também estava pensando sobre isso, mas antes, gostaria de ouvir a opinião de vocês para então chegar a uma conclusão”. Vários de seus alunos também tentaram; Sampú sugeriu,

A luz do crepúsculo;
como as primeiras cinco sílabas;

Ransetsu,
Na solidão,

Kikaku,
A montanha surgiu;

Bashô, ao ouvir isso disse: “Cada um de vocês expressou em sua primeira frase um aspecto da questão e juntos compuseram um verso excepcional; em especial o verso magnífico e poderoso de Kikaku. Contudo, não seguindo o costume e apenas nesta noite, eu direi,

O velho lago;

Todos foram tomados de profunda admiração. Neste verso, o Olho do Haikai é completamente aberto. Ele move Terra e Céu e induz todos os Deuses e Demônios à reverência. Esse é certamente o caminho de Shikishima, semelhante a criação de um Buda. O Dharani de Hitomaru, a Celebração da Vinda do Buda de Saigyô, estão contidos nessas dezessete sílabas.

De jeito ou de outro, eu não me atenho muito a tudo isso. Na minha opinião, Haikai e a prática do Zen deveriam ser mantidos separados. Zen como exercício que conduz à iluminação é uma questão de vida e morte para a alma. Haikai se refere somente a vida. É a flor da existência. É bem verdade que no Zen nós nos esforçamos para ver o mundo como um poeta vê uma árvore florida, mas para chegar a esse estado é necessário um esforço violento, extremas convulsões espirituais não-poéticas, bem diferentes daquela

emoção relembrada com paz,

que é o fluir do objeto e mente em momentos de inspiração poética. Segue abaixo um exemplo melhor da relação entre Zen e Haikai. Sotôba, o grande poeta chinês da dinastia Sung, estudava a doutrina das Coisas Inanimadas, no Templo Ryukóji em Rozan, sob a direção de Jôchô, quando de repente, ao sair do Templo ao amanhecer, atingiu a iluminação e expressou seu entendimento neste verso notório:

The mountain torrent is the broad, long tongue of Buda;
The colours of the mountains, – are they not His Pure Body?
All night, – eighty four thousand Buddhist verses,
But in after days, how shall I show this to others?

“A torrente do rio no vale é a língua longa e larga de Buda;
Não são as cores das montanhas Seu Corpo Imaculado?
De noite eu ouvi os 84000 hinos Budista,
Mas como revelar isto a outros nos dias que virão?”

Esse é o mesmo problema do poeta, transmitir alguma coisa do que ele viu, na verdade transmitir, o poder de ver, a vida produtiva que constitui a parte essencial daquilo que aparece em palavras, rimas e ritimo.

Temos essa mesma identidade de poeta e santo no verso de Sotôba no qual ele descreve sua experiência nas montanhas de Ro,

Misty rain on Mount Ro, the incoming tide at Sekkô, –
Before you have been there, you have many regrets;
When you have been there and come back,
It is just simply misty rain on Mt. Ro, the incoming tide at Sekkô.

Chuva sombria sobre o Monte Ro, maré alta em Sekkô, –
Antes de chegar lá, você se arrepende,
Depois de ir até lá e retornar,
É só chuva sombria sobre o Monte Ro, e a maré alta em Sekkô.

A experiência de Sotôba, o homem, é mais profunda do que se possa imaginar, mas é também aquela do poeta Sotôba. A diferença entre os dois é que a experiência poética pode ser, e geralmente é, restrita à uma área da mente que lida somente com coisas específicas, enquanto que àquela do homem iluminado se expande quer queira quer não por toda personalidade, a atividade completa. Em Sotôba temos a união do homem e do poeta, e de qualquer ponto de vista, sua completa experiência pode ser assumida. Os picos vistos através de uma chuva fina como a fumaça – o poeta entende isso como uma divindade manifesta; água extravazante do riacho é o próprio Deus, mas somente se percebido assim imediatamente; quando existe uma tênue separação entre eles, entre a coisa e Deus, entre ele e Deus, temos uma fenda intelectual que nenhuma paixão consegue unir. Quando pensamos que é assim, não é, e nenhuma força de pensamento conseguirá fazê-lo, porque isso é assim como resultado do imediatismo da nossa percepção. Além disso, quando essa fatuidade (esse “assim-mismo”) das coisas é entendido, ele é entendido com êxtase, mas, no momento que ele se torna uma experiência corriqueira, e perde seu primeiro momento de surpresa, aquele mundo recém-criado se torna o mundo corriqueiro em que vivemos, mas não aquele mundo do homem prosaico, não-poético, não-iluminado, destituído de religião ou poesia. É isso que Sotôba quer dizer quando fala que essas montanhas nubladas e a maré, isso não tem nada especial ou for a do normal. As pessoas que vivem no Céu, aqueles que possuem uma paz sem cobiça, que olham para as coisas sem interesse próprio, tais pessoas acham que suas vidas são totalmente normais e tediosas.

Para o leitor, todo haikai é um kôan, uma indagação no Zen, uma porta aberta que parece fechada, levando a -? A nada e a lugar nenhum, pois a porta é o que leva para dentro e para fora. Nem mesmo é diferente daquele que passa por ela, daquele que não tem nenhuma existencia real. Tudo que nos confronta é um kôan, um teste que fatalmente somos reprovados ou aprovados, coisas do passado, presente e futuro, coisas perto e coisas longe, reais e irreais, abstratas e concretas. E todas essas coisas são poemas em si, como aqueles lírios secos artificiais, que desabrocham quando mergulhados na água da mente. Damos às coisas a sua vida, e elas nos dão a nossa vida.

Não devemos ser nem escravos nem senhores das coisas. Hoje é o Ano Novo, e quando sairmos em direção ao poço ao alvorecer e vermos os raios de sol cintilando na água derramada no balde, diremos:

Na água que eu apanho
Reluz o início
Da primavera.

Mas

Todo dia é um Bom Dia,
ou como se expressa o poeta:

Esse Dia de Ano Novo
Que finalmente chegou, –
É somente um dia.

O reflexo da luz na água não é diferente do das outras manhãs. Ocilamos entre o sentimento, de que é particularmente significativo e luminoso, e o entendimento de que não é. Retenha os dois; não separe o que é dado daquilo que damos. Tudo é o que é, mas tudo é maravilhoso. Tudo é lei, mas somos livres. Por um lado, as coisas são o que são:

O mar era molhado como molhado é o mar,
A areia era seca como seca é a areia.
Não se via uma só nuvem, porque
Não havia nuvem no céu:
Nenhum pássaro voava sobre nós –
Não haviam pássaros para voar.
Por outro lado, nada é como parece ser, tudo é descontroladamente improvável e contraditório. Sentimos uma profunda afinidade espiritual com o Cavaleiro Branco:

Ele disse: “Eu saio à caça dos olhos do hadoque
Entre as flores de brilho azul,
E os transformo em botões de colete
Na noite silenciosa.

Às vezes trabalho por pão com manteiga,
Ou faço armadilhas para pegar carangueijos,
Às vezes vasculho o verde outeiro
À procura de rodas de carruagem.”

Sentimos com Puck:

E nada me agrada mais que um acontecimento contrário à razão.

Ou seja, as coisas são imprevisíveis, únicas e sem lei. Porém, as coisas são simplesmente o que elas são, sem nenhum significado oculto. As coisas são infinitas em significância; mas elas também são decepcionantes, elas são finitas e limitadas. Mas no fundo, no âmago de nossa existência não desejamos nada, nem mesmo que as coisas devessem ser como são. Pois toda nossa aspiração e aversão, nosso instinto mais profundo é:

New Year’s Day;
The hut just as it is,
Nothing to ask for. Nanshi

Dia de Ano Novo;
A cabana exatamente como ela é,
Não preciso de nada.

Momentos de revelação acontecem quando menos se espera, espontaneamente, e para a maioria dos homens, passa desapercebida e é esquecida:

Às vezes, quando a alma menos pensa na revelação, quando ela menos a deseja, Deus a toca divinamente, trazendo à tona determinadas lembranças Dele. Às vezes também, os toques divinos acontecem repentinamente, mesmo quando a alma está absorvida por outra coisa, e ocasionalmente, num momento banal.

The scissors hesitate
Before the white chrysanthemums,
A moment.

A tesoura hesita
Diante do crisântemo branco,
Um instante.

Ah, grief and sadness!
The fishing-line trembles
In the autumn breeze.

Ah, pesar e melancolia!
A linha de pesca treme
com a briza de outono. Buson

Essa percepção da vida das coisas pode surgir do menor contato físico, como por exemplo, um simples toque, uma leve sensação de afeto e resiliência:

“Ela parou, como se estivésse pensando, enquanto suas mãos repousavam sobre o pescoço arcado do cavalo. Aos poucos, em sua alma jovem e inquieta, um discernimento antigo parecia lhe inundar a mente”. (St Mawr)

Segunda parte da tradução do capítulo Haikai e Poesia

14/07/2010

–Traduzido por Cristiane Geus–

Haikai by R.H. Blyth
Sessão III
Haikai e Poesia

Em que língua os poetas falam entre sí?

Nem por palavras nem por silêncio. Nessa condição, nem por palavras nem por silêncio, sua essência é compreendida. Sôshi, 25.

O que dizem os poetas daqueles que não são poetas?

Quando falam, falam bem,
Mas o discurso é incompleto.

É por isso que a poesia é tão cansativa de ler, é por isso que instintivamente a evitamos. Aproximar-se intimamente das coisas ou pessoas é geralmente uma empreitada dolorosa. Até mesmo com Deus é assim.
Deus ama todas as coisas com equidade.

“Gott ist in allen Dingen und an allen Orten gleich, und ist uberall gleich bereit sich dem Menschen zu schenken, so weit es an ihm liegt.” (Deus está em tudo e em todos os lugares, e está disposto a se entregar ao homem na medida que o buscam).

A intuição de Eckhart é expressa de uma maneira tipicamente Zen:

In the vast inane, there is no back or front;
The path of the bird annihilates East and West.

Na imensidão do vazio, não há frente ou verso;
O caminho do pássaro faz desaparecer o Oriente e o Ocidente.

Mas nem tudo recebe, nem pode receber, a mesma porção de amor. Deus está presente em todas as coisas com a mesma intensidade, mas as coisas não O manifestam na mesma proporção. Eckart diz,

“Nun habe ich schon oft gesagt: wenn ich von Gleichheit sprech, so meine ich nicht, dass man alle Werke und alle Orte und alle Leute fur gleich halten soll. Das wäre unrecht; denn Beten ist ein besser werk als Spinnen, und die Kirche ist ein edlere Stätte als die Strasse. Aber du sollst in den Werken ein gleiches Gemut und ein gleiches Zutrauen und einen gleichen Ernst zu deinem Gott haben ”

(Já disse várias vezes: quando falo de igualdade, não quero dizer que devemos manter todas as plantas e todos os lugares e todas as pessoas em pé de igualdade. Isso seria errado, (….) a igreja é um lugar mais nobre que a rua).

E essa desigualdade em tudo, essas limitações são, de uma maneira surpreendente, o verdadeiro atributo que manifesta Deus. É em virtude dessa desigualdade que cada coisa é apreciada.

A árvore manifesta o poder corpóreo do vento;
A onda exibe a natureza espiritual da lua.

Se a árvore fosse resistente demais não manifestaria nada. Se as ondas fossem inflexíveis, a essência da lua não poderia ser manifestada nelas. Esse poder aperfeiçoado na falta de resistência é o que Eckhart chama de tornar-se um filho, aquele que não rejeita nada, que abandona tudo que impede a perfeita união com todas as coisas, boas e más, úteis e inúteis, puras e impuras.

“Sollt ihr also ein Sohn sein, so müsst ihr ablegen und von euch scheiden alles, was eine Besonderheit an euch ausmacht” (Você deve ser um filho, guardar e separar tudo, …. )

Um poeta vê as coisas como elas são na medida do seu desprendimento.

Sou julgado porque busco não a minha própria vontade, mas a vontade Daquele que me enviou.

Em toda circunstância, devemos ser como os servos na festa de Cana:

Fazei tudo o que Ele vos disser.

As flores dizem “Floresçam!” e nós florescemos nelas. O vento sopra e nós balançamos nas folhas. Lawrence descreve o poeta com essas palavras:

Um puro homem-animal, seria tão gracioso como um veado ou um leopardo, irradiando a chama do fogo interior. E ele seria parte do reino invisível, como é o rato até. E ele nunca deixaria de se maravilhar com as coisas, ele respiraria silêncio e milagres, como fazem os perdizes correndo pelo campo arado. Ele seria uma mistura de todos os animais ao invés do ser racional que é agora, irritado. (St. Mawr)

Podemos chegar a mesma conclusão examinando o assunto do lado oposto. Assim como um tomate existe, Deus existe. Quando um tomate apodrece, Deus apodrece. Deus floresce nas flores de verão, cai nas folhas secas do outono, se recolhe e sente frio na neve e na geada do inverno.

The blue hills are by their nature immovable;
The white clouds of themselves come and go.

As colinas azuis são por natureza imóveis;
As núvens brancas de si vêm e vão.

E repito, Deus ama todas as coisas com equidade, o rato que é caçado pelo gato, a água que traga o marinheiro, o homem que espanca sua mãe até a morte. Substitua a palavra “Deus” pela palavra “poeta”, e as afirmações acima são igualmente verdadeiras.
Se você acha que o universo é hostil a você, isso é simplesmente um reflexo da sua animozidade para com o universo. Se você pensa

Sou feliz porque Jesus me ama,

isso é um reflexo da sua simpatia por ele. Na verdade, não é hostil, nem amável, nem indiferente. É você, seu verdadeiro eu. A vida poética, religiosa, é aquela dos anjos

Que sempre vêem a face do Pai que está nos céus.

Assim, apesar da vida do poeta ser uma vida de sofrimento, é também uma vida de paz. O entrelaçamento de vida com vida é agonizante, como perfurar um tumor, como um parto, na linguagem de Dante

Com’acqua recepe
Raggio di luce, permanendo unita.

Como a água recebe
um raio de luz, sem ser dividida.

Primeira parte da tradução do capítulo Haikai e Poesia

14/07/2010

–Traduzido por Cristiane Geus–

Haikai by R.H. Blyth
Sessão III
Haikai e Poesia

A definição de poesia que Coleridge nos dá em Biographia Litteraria (Capítulo XIV) dificilmente se enquadra no Haikai, embora possa ser aplicada a outras formas de verso:

Um poema é aquela espécie de composição que se opõe à trabalhos científicos,
servindo o propósito imediato do seu objeto de prazer, não da verdade.

É estranho que um crítico que também era poeta, não tivésse entendido que poesia é algo que por sua própria natureza não pode ser definido. Quando passamos pela experiência da poesia sentimos,

Através de toda essa vestimenta carnal,
Brotos incandescentes de eternidade

Não é prazer; ou se é, é prazer poético, e voltamos então ao ponto de partida.

A vida é uma chama genuína, e vivemos por meio de um sol invisível dentro de nós. (Browne, Hydriotaphia)

É invisível, mas nós sabemos que a chama está lá. Não vemos a luz; vemos por meio dela.

Haikai é a expressão de uma revelação temporária, na qual vemos a vida interior das coisas.

A flash of lightning!
The sound of drops
Falling among the bamboos. Buson

Um relâmpago!
O ruido dos pingos de chuva
Caindo no bambuzal.

Não existe distinção entre o interior e o exterior no momento da composição ou apreciação. A vida passeia tão livremente entre elas que percebemos as coisas por introspecção, e nossas experiências do mundo exterior têm tanto o mesmo imediatismo, validade e certeza quanto têm estados de auto-consciência pura. Assim como Hôjô, no leito de morte, um esquilo voador, gemia. E então disse,

É a coisa nesse exato momento; não no momento seguinte.
Monges, lembrem-se disso (imediato-urgência).
Agora partirei.

Da mesma maneira Confuncio diz:

Meus amigos, pensam que eu omito algo de vocês?
Não oculto nada de vocês.

Esse é o ofício de um poeta, não nos ocultar nada. Quando ele o exerce, a natureza Budha da coisa é claramente revelada.
Cada coisa anuncia a lei incessantemente, mas essa lei não é algo diferente da coisa em si. Haikai é a revelação dessa pregação apresentando-nos a coisa destituída de toda nossa distorção mental e descoloração emocional; mais propriamente, ele nos mostra a coisa como ela é naquele exato momento tanto fora quanto dentro da mente, perfeitamente subjetivo, nós mesmos indivisíveis do objeto e o objeto em sua unidade original conosco.

Karakasa ni
oshimodosaruru
shigure kana

Walking in the winter rain,
The umbrella
Pushes me back. Shiseijo

Caminhando sob a chuva de inverno,
O guarda-chuva
Me retem.

Assim, o Haikai exige um esforço enorme da nossa pobreza interior. Shakespeare emana sua alma universal, e somos rendidos perante sua oniciência e poder exuberante. Haikai requer que nossa alma encontre seu próprio infinito dentro dos limites de algo finito. É nesse sentido que nada nos é ocultado. Haikai é o resultado do desejo, do esforço, do não falar, do não escrever poesia, do não obscurecer mais a verdade e a essência de uma coisa com palavras, com pensamentos e sentimentos. A esse respeito, disse Emerson,

O que você é fala tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz.

As coisas devem nos falar tão alto que não conseguimos ouvir o que os poetas disseram sobre elas.

Um Haikai não é um poema, não é literatura; é um aceno de mão, uma porta entre-aberta, um espelho limpo. É um modo de retornar à natureza, à nossa natureza da lua, à nossa natureza da florada da cerejeira, à nossa natureza da folha seca caindo, em resumo, à nossa natureza Buda. É um modo no qual a fria chuva de inverno, as andorinhas do entardecer, até o próprio dia com todo seu calor, e a extensão da noite se tornam verdadeiramente vivos, compartilham a nossa humanidade, falam sua própria língua silenciosa e expressiva.

How long the day:
The boat is talking
With the shore. Shiki

Que longo o dia:
O barco conversa
Com a praia.

É uma linguagem silenciosa porque indica unicamente para uma certa região e não explica o porque, nem onde e como. No verso de Shiki acima, o simples significado que o homem dentro do barco está conversando com o homem na praia, devido à sua sumariedade poética, não é o ponto significativo do verso. Isso pertence a outra esfera, onde barcos e praias conversam livremente um com o outro e continuam sua conversação eterna indiferente à nossa discussão intelectual e prosaica.

O que é um poeta? Um poeta é um espírito falando a espíritos.

Meeting, the two friends laugh aloud:
In the grove, fallen leaves are many.

Ao se encontrarem, os dois amigos riem alto:
No bosque, são muitas as folhas no chão.

Confucio não está pensando em um poeta, mas suas palavras se aplicam:

Somente aquele que alcança a (perfeita) sinceridade debaixo do Céu consegue exaurir (as infinitas potencialidades da) sua natureza. Aquele que assim o faz, pode exaurir a natureza de homen, e portanto, a natureza das (todas as outras) coisas, assim alcançando (o poder de) tomar parte na transformadora e vivificante (atividade) de Céu e Terra, e como Homen, fazendo uma tríade com eles.

Oficina: O Termo Ventilador no Haicai

09/03/2010

O ventilador
Junto à cama na varanda –
Enfim, adormeço.

[Celso Pestana]

sapateiro só
teia e poeira nas pás
do ventilador

[josé marins]

Velho ventilador.
Chego mais perto para sentir
A tua brisa.

Meio da tarde.
Tão perto, quase encostando
No ventilador.

Meio da tarde.
Também quentes, as lufadas
Do ventilador.

[Antonio Ezequiel]

Cabelos ao vento –
a menina de castigo
e o seu ventilador.

[Nelson Savioli]

Dorme o menino –
Mãos silenciosas desviam o foco
Do ventilador.

[Solange Yokoyawa]

no quarto do hotel
desligo o ventilador –
madrugada fresca

quarto dos meninos –
na noite, somente o ruído
do ventilador

Noite sem lua –
Minha esposa demora-se
junto ao ventilador

[Jorge Moreno]

jogo de memória –
o menino desliga
o ventilador

[Hércio]

noite de março –
sei agora porque não comprei
o ventilador.

[Rafael Noris]

Toca o telefone –
Atrás do ventilador,
a foto esquecida

Noite no asilo.
As mãos trêmulas desligam
o ventilador

[Chris Herrmann]

Ventilador de teto –
Do que adianta se o ar
não chega até mim?

Parado no canto
o velho ventilador –
Sopra um vento fresco.

[Benedita Azevedo]

ventilador do teto
agora funcionando ___
quarto silencioso

[Carlos Viegas]

Esta oficina é um sonho que o Prof. Franchetti acalentava há muitos anos. Confesso que eu mesmo não me dava conta das possibilidades desse projeto quando falávamos sobre isso em outro fórum, e é uma grata surpresa ver como ele vem evoluindo tão bem, nesses dois meses de atividade. Essa evolução, a meu ver, se deve a dois fatores: à firme direção do mestre e de Rosa Clement, no sentido de exercitar um caminho específico na prática do haicai, sem o conhecimento do qual, ou de suas bases, não creio ser possível sequer vislumbrar a plenitude dessa arte; e à grande participação dos membros da oficina nos exercícios, refazendo várias vezes o que não está bom, aceitando os comentários, as críticas, os pitacos, e, principalmente, o desafio de abrir mão do habitual para aprender uma coisa diferente. Estamos só começando, ainda temos muitíssimo que aprender, mas com esse espírito vamos longe.

Um abraço,
Celso Pestana

Um Poeta Japonês

23/02/2010
Paulo Franchetti

Kobayashi Issa nasceu em 1763, em uma aldeia do atual distrito de Nagano, e faleceu em 1827. Sua obra tem sido objeto de avaliações bastante divergentes, e entre os grandes haicaístas do Japão certamente nenhum gerou mais controvérsia do que ele. Para o leitor ocidental, Issa é talvez o mais acessível dos grandes haicaístas. É mais fácil lê-lo e gostar dele do que de Bashô ou  Buson.

Alguns críticos japoneses e ocidentais pensam que isso se deve ao que consideram “sentimentalidade excessiva” ou “excessiva subjetividade” dos seus versos. Essa tem sido uma opinião moderna, que ganhou força após a “restauração” do haicai empreendida por Masaoka Shiki (1867 1902).

Os críticos que defendem tal julgamento insistem em retraçar a sua biografia para explicar o tom específico do seu haicai: perdeu a mãe aos dois anos, teve uma vida marcada pelas desavenças familiares, pela morte de vários filhos e outros desgostos. Daí que leiam nos seus versos o  “complexo de inferioridade”, a sensação de “rejeição”, a “consciência de ser o enteado”, o “desamparado” etc. Ou seja: daí que pensem que foi essa biografia conturbada que tornou Issa incapaz de evitar a exposição de sentimentos e afetos que não combinariam bem com o haicai.

Mas será que tais explicações, fundadas num psicologismo tão banal, têm ainda algum interesse?

Mesmo que tivessem, não dariam conta do fato de que também no Japão, até hoje, Issa é um dos poetas de haicai mais lidos, sendo majoritariamente considerado um dos “quatro grandes” da sua arte.

Uma outra vertente crítica vê como virtude o que é visto como defeito pelos que se apóiam em Shiki. René Sieffert e Reginald H. Blyth, por exemplo, não apenas consideram Issa um dos “quatro grandes”, mas ainda afirmam que ele é um dos poucos poetas japoneses senão mesmo o único a ombrear com Bashô. No entendimento desses dois reconhecidos estudiosos do haicai, o “sentimentalismo” de Issa é um alargamento das fronteiras da poesia de haicai, uma novidade positiva, que revitalizou o gênero.

O sucesso de Issa entre leitores de todas as idades e nacionalidades parece dever-se principalmente ao efeito de humor franco e simples de boa parte de seus textos e à sua preferência por temas ligados à vida e comportamento de animais e insetos. Isto é: ao seu excelente domínio do registro humilde. É isso também o que explica a sua maior acessibilidade aos leitores não-japoneses: por não utilizar o registro “elevado”, ele quase nunca se vale do procedimento mais comum da poesia japonesa, que é a alusão a fatos, locais, poemas e  personagens das obras clássicas chinesas e nipônicas, indecifráveis para a maior parte dos leitores ocidentais.

Para que se possa ter uma amostragem significativa do estilo de Issa, seguem-se alguns textos do autor, comparados com outros, escritos por diferentes poetas japoneses.

As dez noites do Nembutsu

Ah, o som sagrado.
O chá também diz da bu da bu
– estas dez noites!  (Buson)
A noite é longa.
É muito, muito longa:
Namuamida.  (Issa)

Os dois haicais têm como tema a recitação do Namuamidabutsu (Glória ao Buda Amida), palavra que é incessantemente repetida nos templos da seita da Terra Pura, durante dez noites, em outubro. O de Buson permite duas leituras: uma, a de que todas as coisas, cada qual a seu modo, dizem as palavras sagradas e participam da mesma ordem; outra, a de que o poeta, cansado de ouvir o nembutsu, começa a ouvi-lo por toda a parte, mesmo no borbulhar do chá para fora da chaleira. A primeira leitura é piedosa; a segunda, enfatiza a ironia; e a graça do poema é  justamente a oscilação entre ambas. Já o de Issa, embora possa ser lido como levemente irônico, é sobretudo pungente. O que nele triunfa é a percepção de abandono do homem no meio das trevas de onde emergem as palavras sagradas e, com elas, a possibilidade de encontrar algum sentido nas coisas, por meio da graça concedida pelo Buda.

Os dois textos são profundamente diferentes: o de Buson é sobretudo espirituoso, trabalhado; o de Issa, mais empenhado num tom despojado, coloquial, direto.

Os olhos da libélula

É quase nada
a cara da libélula:
somente olhos.  (Chisoku )
Nos olhos da libélula
refletem se
montanhas distantes.  (Issa)

A libélula é um inseto que se associa tradicionalmente à estação do outono e à idéia de  mobilidade e de transitoriedade. Estes dois haicais se constroem sobre a observação dos enormes olhos do inseto. No entanto, a diferença é muito grande. No poema de Chisoku, o sujeito observador e o objeto observado estão rigidamente separados e a “objetividade” leva a uma notação cômica. No de Issa, todas as coisas se compreendem, se refletem e correspondem: o símbolo da mobilidade é capaz de conter, ao menos nos grandes olhos, a imagem da  permanência e solidez das grandes montanhas distantes. É, portanto, um poema “piedoso”. Do mesmo tipo de piedade que Bashô ensinou a um seu aluno, quando lhe censurou o seguinte haicai: “uma libélula ­tirando-lhe as asas, uma pimenta!”. À violência e ao riso, Bashô preferiu outra coisa, e por isso refez assim os versos do discípulo: “uma pimenta ­ pondo-lhe asas, uma libélula!”. Também Issa, ao invés de opor e reduzir, tratou aqui de integrar e de ampliar.

A paisagem vazia

A neve cai mais forte
quando me detenho
de noite na estrada.  (Kitô)
Não há céu nem terra,
apenas a neve
caindo sem parar.   (Hashin)
Nós contemplamos
até mesmo os cavalos
nesta manhã de neve!  (Bashô)
Apenas estando aqui,
estou aqui,
e a neve cai.    (Issa)

De todos esses haicais, o de Issa é o que apresenta menos elementos, E, no entanto, é muito impressivo. Produz, num ambiente budista, um grande efeito de “sabedoria” ou “desenvolvimento espiritual”, traz para primeiro plano a noção de que é necessário “envelhecer” muito para simplesmente poder estar ali, inteiramente ali, enquanto algo acontece.

A arte de “estar desperto”

É contra esse mesmo pano de fundo do pietismo e da “iluminação” budista ­ isto é: num quadro tradicional, e não em função da biografia do poeta, ou num quadro psicologista ­, que se devem ler alguns dos seus versos mais famosos, como os que aqui são publicados.

Com ou sem humor, tratando de temas que podem ou não ser colocados em função da sua biografia, o que de fato importa no haicai de Issa é a maestria com que ali se atualizam, numa dada forma literária, elementos centrais da tradição budista. O despojamento da linguagem, a facilidade dos poemas, o “sentimentalismo”, a ausência de alusões eruditas e até a biografia atormentada (que Issa é o primeiro a explorar em diários e em poemas) são, assim, elementos que não podem ser considerados separadamente, mas como parte de uma “poética”. Ou seja, são elementos organizados por um ponto focal e que têm, por isso, uma determinada ação sobre o leitor. E esse ponto focal é o que ecoa a resposta de Buda à pergunta sobre o que o tornava um Buda: “Apenas estou desperto”.

O Que é o Haicai?

21/02/2010

 Paulo Franchetti 

Penso que o haicai pode ser descrito assim: um texto breve, usual­mente em tercetos, composto de tal forma que dois segmen­tos fra­sais se justaponham e que um deles contenha uma palavra que remeta, direta ou indireta­mente, a uma dada estação do ano.

Mas é evidente que não basta essa conformação formal para que um poema deixe de ser um simples terceto e o chamemos de haikai. Pelo menos nos meios mais atuantes da poesia haikaística brasileira, dizemos que esta­mos perante um texto de haikai quando reconhecemos naquele texto uma dada disposição de espírito, ou se preferirmos ex­pressões mais palpáveis: uma certa orientação do discurso, uma certa atitude poética, responsável por um modo específico de recepção daquele texto. Mas se a definição do haicai não se pode fazer recorrendo a um modelo métrico e estrófico, nem às linhas gerais da organização sintática das frases que o compõem, o que significa dizer que um poema em três versos é haicai? Não se trata apenas de emitir um juízo de valor, porque, depois de algum treino, sabemos com bastante segurança quando temos frente aos nossos olhos um haicai, mesmo que seja um haicai ruim… A pergunta sobre o que é o haicai nos conduz, já que o haicai não é um tipo de poema congenial à nossa tradição, a esta outra: o que é que se busca incor­porar à nossa tradição quando se tenta fazer haicai em português?

Proceden­do também por análise dos vários textos poéticos e teóricos produzidos no Brasil, diríamos que o objetivo do haicai, que se atualiza em procedimentos textuais vários, é a obtenção de uma percepção muito ampla ou intensa por meio de uma sensação. O que nos parece mais específico do haicai é o fato de ser um texto que se limita voluntariamente a expressar o contraste entre a fugacidade de uma sensação e o seu ecoar nas diversas cordas da sensibilidade e da memória. Daí a impor­tância da palavra de estação (kigo) no haikai japonês, que, com outro estatuto, vem sendo também, cada vez mais, incorporada ­à prática no Brasil. É do kigo que decorre quase todo o haicai japonês. Em muitos casos, o kigo represen­ta o aqui e o agora que originou uma dada emo­ção; em outros tantos, permite sugerir, muito econo­micamente, um estado de espírito carac­terístico que está, tradicionalmente, associado a um dado elemento da realida­de. No Brasil, não há uma tradição em que algumas palavras estejam firmemente associadas a uma dada estação do ano, e por isso o uso do kigo é aqui ainda bastante irregular e nem sempre tão funcional.

Daí que o mais das vezes seja a sensação, ela mesma, o foco da atenção do haicai brasileiro, e não o kigo que apenas a sugeriria. Mas, seja a sensação uma representação direta, ou uma alusão através do kigo, é da relação entre a sensação e universo maior em que ela se situa que decorre uma outra característica predominante na maioria dos haicais, tanto na tradição japonesa, quanto na brasileira: a composição por justaposição, em que o sentido se obtém pelo choque ou consonância que se estabelece entre dois (ou mais) segmentos frasais do pequeno poema.

Finalmente, uma última característica — esta, porém, ainda se depreende mais dos textos preceptivos do que da maioria dos haicais produzidos no país: o haicai não é síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo, isto é, não é condensação, no sentido de se eliminar a maior quantidade possível de elementos sintáticos ou de figuras de linguagem para expressar o máximo. Um bom haicai é aquele que consegue o suficiente com o mínimo, que modestamente não exibe virtuosidade técnica ou capacidade de associação brilhante, mas que apenas situa uma dada percepção sensória, objetiva, num campo de maior de referências (objetivas ou subjetivas) onde ela ganhe sentido e componha um quadro único, que se apresenta ao leitor como pura presentificação de um momento fugaz.