Primeira parte da tradução do capítulo Haikai e Poesia

–Traduzido por Cristiane Geus–

Haikai by R.H. Blyth
Sessão III
Haikai e Poesia

A definição de poesia que Coleridge nos dá em Biographia Litteraria (Capítulo XIV) dificilmente se enquadra no Haikai, embora possa ser aplicada a outras formas de verso:

Um poema é aquela espécie de composição que se opõe à trabalhos científicos,
servindo o propósito imediato do seu objeto de prazer, não da verdade.

É estranho que um crítico que também era poeta, não tivésse entendido que poesia é algo que por sua própria natureza não pode ser definido. Quando passamos pela experiência da poesia sentimos,

Através de toda essa vestimenta carnal,
Brotos incandescentes de eternidade

Não é prazer; ou se é, é prazer poético, e voltamos então ao ponto de partida.

A vida é uma chama genuína, e vivemos por meio de um sol invisível dentro de nós. (Browne, Hydriotaphia)

É invisível, mas nós sabemos que a chama está lá. Não vemos a luz; vemos por meio dela.

Haikai é a expressão de uma revelação temporária, na qual vemos a vida interior das coisas.

A flash of lightning!
The sound of drops
Falling among the bamboos. Buson

Um relâmpago!
O ruido dos pingos de chuva
Caindo no bambuzal.

Não existe distinção entre o interior e o exterior no momento da composição ou apreciação. A vida passeia tão livremente entre elas que percebemos as coisas por introspecção, e nossas experiências do mundo exterior têm tanto o mesmo imediatismo, validade e certeza quanto têm estados de auto-consciência pura. Assim como Hôjô, no leito de morte, um esquilo voador, gemia. E então disse,

É a coisa nesse exato momento; não no momento seguinte.
Monges, lembrem-se disso (imediato-urgência).
Agora partirei.

Da mesma maneira Confuncio diz:

Meus amigos, pensam que eu omito algo de vocês?
Não oculto nada de vocês.

Esse é o ofício de um poeta, não nos ocultar nada. Quando ele o exerce, a natureza Budha da coisa é claramente revelada.
Cada coisa anuncia a lei incessantemente, mas essa lei não é algo diferente da coisa em si. Haikai é a revelação dessa pregação apresentando-nos a coisa destituída de toda nossa distorção mental e descoloração emocional; mais propriamente, ele nos mostra a coisa como ela é naquele exato momento tanto fora quanto dentro da mente, perfeitamente subjetivo, nós mesmos indivisíveis do objeto e o objeto em sua unidade original conosco.

Karakasa ni
oshimodosaruru
shigure kana

Walking in the winter rain,
The umbrella
Pushes me back. Shiseijo

Caminhando sob a chuva de inverno,
O guarda-chuva
Me retem.

Assim, o Haikai exige um esforço enorme da nossa pobreza interior. Shakespeare emana sua alma universal, e somos rendidos perante sua oniciência e poder exuberante. Haikai requer que nossa alma encontre seu próprio infinito dentro dos limites de algo finito. É nesse sentido que nada nos é ocultado. Haikai é o resultado do desejo, do esforço, do não falar, do não escrever poesia, do não obscurecer mais a verdade e a essência de uma coisa com palavras, com pensamentos e sentimentos. A esse respeito, disse Emerson,

O que você é fala tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz.

As coisas devem nos falar tão alto que não conseguimos ouvir o que os poetas disseram sobre elas.

Um Haikai não é um poema, não é literatura; é um aceno de mão, uma porta entre-aberta, um espelho limpo. É um modo de retornar à natureza, à nossa natureza da lua, à nossa natureza da florada da cerejeira, à nossa natureza da folha seca caindo, em resumo, à nossa natureza Buda. É um modo no qual a fria chuva de inverno, as andorinhas do entardecer, até o próprio dia com todo seu calor, e a extensão da noite se tornam verdadeiramente vivos, compartilham a nossa humanidade, falam sua própria língua silenciosa e expressiva.

How long the day:
The boat is talking
With the shore. Shiki

Que longo o dia:
O barco conversa
Com a praia.

É uma linguagem silenciosa porque indica unicamente para uma certa região e não explica o porque, nem onde e como. No verso de Shiki acima, o simples significado que o homem dentro do barco está conversando com o homem na praia, devido à sua sumariedade poética, não é o ponto significativo do verso. Isso pertence a outra esfera, onde barcos e praias conversam livremente um com o outro e continuam sua conversação eterna indiferente à nossa discussão intelectual e prosaica.

O que é um poeta? Um poeta é um espírito falando a espíritos.

Meeting, the two friends laugh aloud:
In the grove, fallen leaves are many.

Ao se encontrarem, os dois amigos riem alto:
No bosque, são muitas as folhas no chão.

Confucio não está pensando em um poeta, mas suas palavras se aplicam:

Somente aquele que alcança a (perfeita) sinceridade debaixo do Céu consegue exaurir (as infinitas potencialidades da) sua natureza. Aquele que assim o faz, pode exaurir a natureza de homen, e portanto, a natureza das (todas as outras) coisas, assim alcançando (o poder de) tomar parte na transformadora e vivificante (atividade) de Céu e Terra, e como Homen, fazendo uma tríade com eles.

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