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Oficina: O Termo Ventilador no Haicai

09/03/2010

O ventilador
Junto à cama na varanda –
Enfim, adormeço.

[Celso Pestana]

sapateiro só
teia e poeira nas pás
do ventilador

[josé marins]

Velho ventilador.
Chego mais perto para sentir
A tua brisa.

Meio da tarde.
Tão perto, quase encostando
No ventilador.

Meio da tarde.
Também quentes, as lufadas
Do ventilador.

[Antonio Ezequiel]

Cabelos ao vento –
a menina de castigo
e o seu ventilador.

[Nelson Savioli]

Dorme o menino –
Mãos silenciosas desviam o foco
Do ventilador.

[Solange Yokoyawa]

no quarto do hotel
desligo o ventilador –
madrugada fresca

quarto dos meninos –
na noite, somente o ruído
do ventilador

Noite sem lua –
Minha esposa demora-se
junto ao ventilador

[Jorge Moreno]

jogo de memória –
o menino desliga
o ventilador

[Hércio]

noite de março –
sei agora porque não comprei
o ventilador.

[Rafael Noris]

Toca o telefone –
Atrás do ventilador,
a foto esquecida

Noite no asilo.
As mãos trêmulas desligam
o ventilador

[Chris Herrmann]

Ventilador de teto –
Do que adianta se o ar
não chega até mim?

Parado no canto
o velho ventilador –
Sopra um vento fresco.

[Benedita Azevedo]

ventilador do teto
agora funcionando ___
quarto silencioso

[Carlos Viegas]

Esta oficina é um sonho que o Prof. Franchetti acalentava há muitos anos. Confesso que eu mesmo não me dava conta das possibilidades desse projeto quando falávamos sobre isso em outro fórum, e é uma grata surpresa ver como ele vem evoluindo tão bem, nesses dois meses de atividade. Essa evolução, a meu ver, se deve a dois fatores: à firme direção do mestre e de Rosa Clement, no sentido de exercitar um caminho específico na prática do haicai, sem o conhecimento do qual, ou de suas bases, não creio ser possível sequer vislumbrar a plenitude dessa arte; e à grande participação dos membros da oficina nos exercícios, refazendo várias vezes o que não está bom, aceitando os comentários, as críticas, os pitacos, e, principalmente, o desafio de abrir mão do habitual para aprender uma coisa diferente. Estamos só começando, ainda temos muitíssimo que aprender, mas com esse espírito vamos longe.

Um abraço,
Celso Pestana

Um Poeta Japonês

23/02/2010
Paulo Franchetti

Kobayashi Issa nasceu em 1763, em uma aldeia do atual distrito de Nagano, e faleceu em 1827. Sua obra tem sido objeto de avaliações bastante divergentes, e entre os grandes haicaístas do Japão certamente nenhum gerou mais controvérsia do que ele. Para o leitor ocidental, Issa é talvez o mais acessível dos grandes haicaístas. É mais fácil lê-lo e gostar dele do que de Bashô ou  Buson.

Alguns críticos japoneses e ocidentais pensam que isso se deve ao que consideram “sentimentalidade excessiva” ou “excessiva subjetividade” dos seus versos. Essa tem sido uma opinião moderna, que ganhou força após a “restauração” do haicai empreendida por Masaoka Shiki (1867 1902).

Os críticos que defendem tal julgamento insistem em retraçar a sua biografia para explicar o tom específico do seu haicai: perdeu a mãe aos dois anos, teve uma vida marcada pelas desavenças familiares, pela morte de vários filhos e outros desgostos. Daí que leiam nos seus versos o  “complexo de inferioridade”, a sensação de “rejeição”, a “consciência de ser o enteado”, o “desamparado” etc. Ou seja: daí que pensem que foi essa biografia conturbada que tornou Issa incapaz de evitar a exposição de sentimentos e afetos que não combinariam bem com o haicai.

Mas será que tais explicações, fundadas num psicologismo tão banal, têm ainda algum interesse?

Mesmo que tivessem, não dariam conta do fato de que também no Japão, até hoje, Issa é um dos poetas de haicai mais lidos, sendo majoritariamente considerado um dos “quatro grandes” da sua arte.

Uma outra vertente crítica vê como virtude o que é visto como defeito pelos que se apóiam em Shiki. René Sieffert e Reginald H. Blyth, por exemplo, não apenas consideram Issa um dos “quatro grandes”, mas ainda afirmam que ele é um dos poucos poetas japoneses senão mesmo o único a ombrear com Bashô. No entendimento desses dois reconhecidos estudiosos do haicai, o “sentimentalismo” de Issa é um alargamento das fronteiras da poesia de haicai, uma novidade positiva, que revitalizou o gênero.

O sucesso de Issa entre leitores de todas as idades e nacionalidades parece dever-se principalmente ao efeito de humor franco e simples de boa parte de seus textos e à sua preferência por temas ligados à vida e comportamento de animais e insetos. Isto é: ao seu excelente domínio do registro humilde. É isso também o que explica a sua maior acessibilidade aos leitores não-japoneses: por não utilizar o registro “elevado”, ele quase nunca se vale do procedimento mais comum da poesia japonesa, que é a alusão a fatos, locais, poemas e  personagens das obras clássicas chinesas e nipônicas, indecifráveis para a maior parte dos leitores ocidentais.

Para que se possa ter uma amostragem significativa do estilo de Issa, seguem-se alguns textos do autor, comparados com outros, escritos por diferentes poetas japoneses.

As dez noites do Nembutsu

Ah, o som sagrado.
O chá também diz da bu da bu
– estas dez noites!  (Buson)
A noite é longa.
É muito, muito longa:
Namuamida.  (Issa)

Os dois haicais têm como tema a recitação do Namuamidabutsu (Glória ao Buda Amida), palavra que é incessantemente repetida nos templos da seita da Terra Pura, durante dez noites, em outubro. O de Buson permite duas leituras: uma, a de que todas as coisas, cada qual a seu modo, dizem as palavras sagradas e participam da mesma ordem; outra, a de que o poeta, cansado de ouvir o nembutsu, começa a ouvi-lo por toda a parte, mesmo no borbulhar do chá para fora da chaleira. A primeira leitura é piedosa; a segunda, enfatiza a ironia; e a graça do poema é  justamente a oscilação entre ambas. Já o de Issa, embora possa ser lido como levemente irônico, é sobretudo pungente. O que nele triunfa é a percepção de abandono do homem no meio das trevas de onde emergem as palavras sagradas e, com elas, a possibilidade de encontrar algum sentido nas coisas, por meio da graça concedida pelo Buda.

Os dois textos são profundamente diferentes: o de Buson é sobretudo espirituoso, trabalhado; o de Issa, mais empenhado num tom despojado, coloquial, direto.

Os olhos da libélula

É quase nada
a cara da libélula:
somente olhos.  (Chisoku )
Nos olhos da libélula
refletem se
montanhas distantes.  (Issa)

A libélula é um inseto que se associa tradicionalmente à estação do outono e à idéia de  mobilidade e de transitoriedade. Estes dois haicais se constroem sobre a observação dos enormes olhos do inseto. No entanto, a diferença é muito grande. No poema de Chisoku, o sujeito observador e o objeto observado estão rigidamente separados e a “objetividade” leva a uma notação cômica. No de Issa, todas as coisas se compreendem, se refletem e correspondem: o símbolo da mobilidade é capaz de conter, ao menos nos grandes olhos, a imagem da  permanência e solidez das grandes montanhas distantes. É, portanto, um poema “piedoso”. Do mesmo tipo de piedade que Bashô ensinou a um seu aluno, quando lhe censurou o seguinte haicai: “uma libélula ­tirando-lhe as asas, uma pimenta!”. À violência e ao riso, Bashô preferiu outra coisa, e por isso refez assim os versos do discípulo: “uma pimenta ­ pondo-lhe asas, uma libélula!”. Também Issa, ao invés de opor e reduzir, tratou aqui de integrar e de ampliar.

A paisagem vazia

A neve cai mais forte
quando me detenho
de noite na estrada.  (Kitô)
Não há céu nem terra,
apenas a neve
caindo sem parar.   (Hashin)
Nós contemplamos
até mesmo os cavalos
nesta manhã de neve!  (Bashô)
Apenas estando aqui,
estou aqui,
e a neve cai.    (Issa)

De todos esses haicais, o de Issa é o que apresenta menos elementos, E, no entanto, é muito impressivo. Produz, num ambiente budista, um grande efeito de “sabedoria” ou “desenvolvimento espiritual”, traz para primeiro plano a noção de que é necessário “envelhecer” muito para simplesmente poder estar ali, inteiramente ali, enquanto algo acontece.

A arte de “estar desperto”

É contra esse mesmo pano de fundo do pietismo e da “iluminação” budista ­ isto é: num quadro tradicional, e não em função da biografia do poeta, ou num quadro psicologista ­, que se devem ler alguns dos seus versos mais famosos, como os que aqui são publicados.

Com ou sem humor, tratando de temas que podem ou não ser colocados em função da sua biografia, o que de fato importa no haicai de Issa é a maestria com que ali se atualizam, numa dada forma literária, elementos centrais da tradição budista. O despojamento da linguagem, a facilidade dos poemas, o “sentimentalismo”, a ausência de alusões eruditas e até a biografia atormentada (que Issa é o primeiro a explorar em diários e em poemas) são, assim, elementos que não podem ser considerados separadamente, mas como parte de uma “poética”. Ou seja, são elementos organizados por um ponto focal e que têm, por isso, uma determinada ação sobre o leitor. E esse ponto focal é o que ecoa a resposta de Buda à pergunta sobre o que o tornava um Buda: “Apenas estou desperto”.