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O Que é o Haicai?

21/02/2010

 Paulo Franchetti 

Penso que o haicai pode ser descrito assim: um texto breve, usual­mente em tercetos, composto de tal forma que dois segmen­tos fra­sais se justaponham e que um deles contenha uma palavra que remeta, direta ou indireta­mente, a uma dada estação do ano.

Mas é evidente que não basta essa conformação formal para que um poema deixe de ser um simples terceto e o chamemos de haikai. Pelo menos nos meios mais atuantes da poesia haikaística brasileira, dizemos que esta­mos perante um texto de haikai quando reconhecemos naquele texto uma dada disposição de espírito, ou se preferirmos ex­pressões mais palpáveis: uma certa orientação do discurso, uma certa atitude poética, responsável por um modo específico de recepção daquele texto. Mas se a definição do haicai não se pode fazer recorrendo a um modelo métrico e estrófico, nem às linhas gerais da organização sintática das frases que o compõem, o que significa dizer que um poema em três versos é haicai? Não se trata apenas de emitir um juízo de valor, porque, depois de algum treino, sabemos com bastante segurança quando temos frente aos nossos olhos um haicai, mesmo que seja um haicai ruim… A pergunta sobre o que é o haicai nos conduz, já que o haicai não é um tipo de poema congenial à nossa tradição, a esta outra: o que é que se busca incor­porar à nossa tradição quando se tenta fazer haicai em português?

Proceden­do também por análise dos vários textos poéticos e teóricos produzidos no Brasil, diríamos que o objetivo do haicai, que se atualiza em procedimentos textuais vários, é a obtenção de uma percepção muito ampla ou intensa por meio de uma sensação. O que nos parece mais específico do haicai é o fato de ser um texto que se limita voluntariamente a expressar o contraste entre a fugacidade de uma sensação e o seu ecoar nas diversas cordas da sensibilidade e da memória. Daí a impor­tância da palavra de estação (kigo) no haikai japonês, que, com outro estatuto, vem sendo também, cada vez mais, incorporada ­à prática no Brasil. É do kigo que decorre quase todo o haicai japonês. Em muitos casos, o kigo represen­ta o aqui e o agora que originou uma dada emo­ção; em outros tantos, permite sugerir, muito econo­micamente, um estado de espírito carac­terístico que está, tradicionalmente, associado a um dado elemento da realida­de. No Brasil, não há uma tradição em que algumas palavras estejam firmemente associadas a uma dada estação do ano, e por isso o uso do kigo é aqui ainda bastante irregular e nem sempre tão funcional.

Daí que o mais das vezes seja a sensação, ela mesma, o foco da atenção do haicai brasileiro, e não o kigo que apenas a sugeriria. Mas, seja a sensação uma representação direta, ou uma alusão através do kigo, é da relação entre a sensação e universo maior em que ela se situa que decorre uma outra característica predominante na maioria dos haicais, tanto na tradição japonesa, quanto na brasileira: a composição por justaposição, em que o sentido se obtém pelo choque ou consonância que se estabelece entre dois (ou mais) segmentos frasais do pequeno poema.

Finalmente, uma última característica — esta, porém, ainda se depreende mais dos textos preceptivos do que da maioria dos haicais produzidos no país: o haicai não é síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo, isto é, não é condensação, no sentido de se eliminar a maior quantidade possível de elementos sintáticos ou de figuras de linguagem para expressar o máximo. Um bom haicai é aquele que consegue o suficiente com o mínimo, que modestamente não exibe virtuosidade técnica ou capacidade de associação brilhante, mas que apenas situa uma dada percepção sensória, objetiva, num campo de maior de referências (objetivas ou subjetivas) onde ela ganhe sentido e componha um quadro único, que se apresenta ao leitor como pura presentificação de um momento fugaz.