Quarta Parte da tradução do capítulo Haikai e Poesia

–Traduzido por Cristiane Geus–

Haikai by R.H. Blyth
Sessão III
Haikai e Poesia

How heavy the rain
On the kasa stolen
From the scarecrow Kyoshi

Que chuva pesada
Sobre o chapéu roubado
do espantalho

Vem de algum domínio primitivo de som que nos chama de volta para alguma coisa que perdemos, algumas lembranças que têm intimações de imortalidade nelas:

Quando ele ergueu sua cabeça e relinchou do fundo do peito, como sinos de vento ressoando intensamente, ela parecia ouvir os ecos de um outro mundo, mais sombrio, mais espaçoso, mais perigoso, mais esplêndido que o nosso, aquele que estava além dela, e era para lá que ela queria ir.

O poeta inglês diz isso, mas tudo isso já é intrínseco no haikai:

Night deepens,
And sleep in the villages;
Sounds of falling water. Buson

Madrugada,
E o descanso nas aldeias;
Soa como uma cascata d’água.

Para ouvir essas nuances de significados, é necessário não apenas uma total abnegação mas também uma sensibilidade aguçada. Na verdade, significa

Na tortura da mente mentir
Num êxtase incansável. Macbeth

Esta é a personalidade do extrovertido; o introvertido se expressa com mais moderação;

Discretas compaixões silenciosas
E perturbações suaves da mente
De múltiplas singularidades, diferenças
Percebidas nas coisas, onde para o olho desatento
Nenhuma diferença faz. (Prelude, I, 400)

Um exemplo da extrema delicadeza de percepção dos poetas japoneses:

The white Chrysanthemums
Seem higher than they are,
In the morning twilight. Yasen

O Crisântemo branco
Parece mais alto do que é,
Na luz da aurora.

O que a maioria das pessoas não percebe é que a poesia, assim como a religião e a moral, é algo contínuo; esta sensibilidade poética nunca cessa enquanto a vida existir. Emerson diz:

Demonstramos aquilo que somos. O caráter fala mais alto que a nossa vontade. Os homens pensam que demonstram suas virtudes ou seus defeitos somente pelas suas ações visíveis, e não percebem que a virtude ou o defeito emitem uma fragrância a todo momento.

A única coisa que um poeta de haikai evita, instintiva e conscientemente, é a poesia “explicativa”. O que Spengler fala dele mesmo como historiador pode ser tomado como um manifesto do poeta de haikai, o Estilo do Haikai:

Somos céticos em relação a toda e qualquer forma de pensamento que “explica” as coisas como causa e efeito. Deixamos as coisas falarem por elas mesmas, e nos restringirmos a compreender o Destino imanente nelas e a contemplar a forma de manifestações que nunca compreenderemos. O máximo que conseguiremos ater é puramente a descoberta de formas existentes, sem causa, sem propósito, fundamentando o inconstante quadro da natureza. (Group of the Higher Cultures, 3)

O poeta de haikai não apenas não se dispõe a entender qualquer coisa que ele ouve e vê, mas ele examina rigorosamente a tendência fatal da razão para julgar a totalidade das coisas.

Louco é quem espera que a nossa razão
possa transcorrer a via infinita
que tem uma substância em três pessoas:
Tende bom ânimo, Oh! raça humana.

Kamiji Yama:
Minha cabeça encostada
sobre ela mesma. Issa

Monte Kamiji é a colina consagrada no Pátio Interno do Santuário de Ise. Sem dúvida nenhuma, Issa acreditava que esse lugar era intrinsecamente sagrado, mas para poetas, qualquer lugar que tenha a sensação de ser, ou que foi percebido como um lugar santo, é também sagrado para eles, pois é o ato de pensar que o faz assim, o “pensamento” da humanidade feito até agora para eles pelos poetas.

O intuito do haikai é conferir às coisas a vida poética que elas já possuem por direito. Assim como na conduta moral, a matéria é indiferente; a qualquer hora, em qualquer lugar, qualquer coisa vale.

O que importa se tal coisa seja desse jeito ou daquele, de maneira que a forma que dão seja heróica ou poética?

Essa poesia das coisa não é algo sobreposto a elas, mas retirado delas como o sol e a chuva retiram a tenra folha do botão rígido. Existe uma poesia independente da rima e do ritmo, da onomatopéia e da concisão poética, da cadência e do paralelismo, de toda e qualquer forma. É inexprimível e impensável até mesmo quando expressado em palavras e noções, e vive uma vida separada daquela chamada poesia. É o ato de ver que acontece quando uma borboleta branca bate as asas perto de nós e voa em direção ao vale, para nunca mais voltar:

Eis que faço nova todas as coisas.

Mas não somente as coisas belas da vida, nem mesmo a beleza das coisas belas, mas seu significado, o papel que desempenham no todo, a fluência da sua atividade, se de raio ou de aparente rochas eternas, devem ser o objeto do haikai. Marcus Aurelius diz:

Assim também as espigas de milho curvadas para a mãe terra, a sobrancelha despenteada do leão, a espuma escorrendo das mandíbulas do javali, e incontáveis objetos do mesmo tipo, por eles mesmos, estão longe o suficiente da beleza, apesar de ainda serem efeitos das ações da natureza, servem para orna-la, e alegram o coração do espectador.

O desenvolvimento da poesia deve ser em duas direções extremas, alargando sua extensão para o longínquo e para o perto; para o infinito e para o finito.

A lua no riacho brilha sobre a brisa no pinheiral.

Isso requer uma certa imprecisão “Shelleyana” da visão para compreendê-la em seu verdadeiro sentido concreto.

O cavalo branco adentra as flores brancas do juncal.

A brancura sempre nos conduz em direção ao absoluto.

Among the grasses,
A flower blooms white,
Its name unknown. Shiki

Em meio a relva,
Nasce uma flor branca,
De nome desconhecido.

Por outro lado, a poesia deve dar voz às coisas mais inarticuladas:

Hal. Via, Compadre Dull; não disseste uma só palavra todo esse tempo.

Dull. Não entendi nenhuma, senhor.

Hal. Allons, vamos dar-te ocupação.

Dull. Arranjarei uma, dançando; ou então tocarei tambor para que os Heróis dancem a quadrilha.

Hal. Entediante, leal Dull, vamos às armas.

Em seus contos, O. Henry, e mesmo Ring Lardner, consideraram os indivíduos inarticulados que compõem “a multidão de muitas cabeças” tão expressivos das suas vidas interiores quanto Hamlet ou Macbeth. Entretanto, o esforço de ampliar a abrangência do haikai freqüentemente tem sido feito, nem tanto de alguma necessidade sentida conscientemente para incluir todas as coisas, mesmo as mais obstinadas, sob a influência da poesia, ou o desejo de ver tudo em tempo sub specie aetermitatis, mas porque os poetas se cansaram de dizer a mesma coisa sobre o mesmo limitado tema de assuntos. Uma maneira de reviver a poesia é alargar as relações do tema. Numa carta ao seu aluno Kitô, Buson diz que em relação às flores da ameixeira, os poetas esgotaram seus aspectos convencionais, e novos esforços devem ser empreendidos para obter novos significados deles. Ele em seguida cita seus próprios versos para mostrar o que ele quer dizer pelo estilo antigo e novo de pensamento poético.

Poemas do modo habitual de pensar:

O morcego bate as asas e rodopia
Na lua
sobre as flores da ameixeira.

As flores da ameixeira caindo,
Madrepérola
esparramada sobre a mesa.

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