Terceira parte da tradução do capítulo Haikai e Poesia

–Traduzido por Cristiane Geus–

Haikai by R.H. Blyth
Sessão III
Haikai e Poesia

Conta-se a seguinte estória sobre essa criação de Bashô:

The old pond;
A frog jumps in, –
The sound of the water.

O velho lago;
Uma rã mergulha, –
O barulho da água.

A autenticidade do relato abaixo é duvidosa e de certa maneira, destroi a simplicidade e aparente espontaneidade do original. De fato, percebe-se uma tendência de extrair do inconsciente e do instintivo o que deveria ser deixado lá, um tipo de formalidade artificial e esotérica que chega a ser repugnante à mente poética. Apesar disso, é uma ilustração de como Zen e haikai estão relacionados, e mostra também um certo tipo de tendência de pensamento poético que tem acompanhado o haikai desde o aparecimento de Bashô.

Bucchô, do Templo Komponji, um monge com profundo conhecimento e um alto nível de realização espiritual, tornou-se o mestre de Bashô. Ao mudar-se para o Templo Chôkeiji, em Fukagawa próximo a Edo, visitou o poeta acompanhado de um homem chamado Rokuso Gohei. O último, ao entrar na habitação do eremita, exclamou, “Como é a Lei Budista nesse jardim tranquilo com suas árvores e plantas?”

Bashô respondeu, “Folhas grandes são grandes, folhas pequenas são pequenas.”

Então Bucchô ao entrar perguntou, “O que você aprendeu recentemente?”

Bashô respondeu, “Respingos de chuva, o musgo verde está viçoso.”

Bucchô continuou perguntando: “Que Lei Budista é essa, antes que o musgo verde começasse a brotar?”

Naquele exato momento, ao ouvir o som de uma rã pulando dentro da água, Bashô exclamou: “O barulho da rã pulando na água”.

Bucchô ficou muito admirado com a resposta, e a considerou como uma prova do grau de discernimento de Bashô. Nesse momento, Sampú parabenizou respeitosamente Bashô por compor este verso, reconhecido por Bucchô, adicionando à arte a glória da religião; Ransetsu disse: “Pode-se dizer que essa setença do som da água representa perfeitamente o significado do haikai, contudo, a primeira parte do verso está faltando. Por favor, complete-a”. Bashô respondeu: “Eu também estava pensando sobre isso, mas antes, gostaria de ouvir a opinião de vocês para então chegar a uma conclusão”. Vários de seus alunos também tentaram; Sampú sugeriu,

A luz do crepúsculo;
como as primeiras cinco sílabas;

Ransetsu,
Na solidão,

Kikaku,
A montanha surgiu;

Bashô, ao ouvir isso disse: “Cada um de vocês expressou em sua primeira frase um aspecto da questão e juntos compuseram um verso excepcional; em especial o verso magnífico e poderoso de Kikaku. Contudo, não seguindo o costume e apenas nesta noite, eu direi,

O velho lago;

Todos foram tomados de profunda admiração. Neste verso, o Olho do Haikai é completamente aberto. Ele move Terra e Céu e induz todos os Deuses e Demônios à reverência. Esse é certamente o caminho de Shikishima, semelhante a criação de um Buda. O Dharani de Hitomaru, a Celebração da Vinda do Buda de Saigyô, estão contidos nessas dezessete sílabas.

De jeito ou de outro, eu não me atenho muito a tudo isso. Na minha opinião, Haikai e a prática do Zen deveriam ser mantidos separados. Zen como exercício que conduz à iluminação é uma questão de vida e morte para a alma. Haikai se refere somente a vida. É a flor da existência. É bem verdade que no Zen nós nos esforçamos para ver o mundo como um poeta vê uma árvore florida, mas para chegar a esse estado é necessário um esforço violento, extremas convulsões espirituais não-poéticas, bem diferentes daquela

emoção relembrada com paz,

que é o fluir do objeto e mente em momentos de inspiração poética. Segue abaixo um exemplo melhor da relação entre Zen e Haikai. Sotôba, o grande poeta chinês da dinastia Sung, estudava a doutrina das Coisas Inanimadas, no Templo Ryukóji em Rozan, sob a direção de Jôchô, quando de repente, ao sair do Templo ao amanhecer, atingiu a iluminação e expressou seu entendimento neste verso notório:

The mountain torrent is the broad, long tongue of Buda;
The colours of the mountains, – are they not His Pure Body?
All night, – eighty four thousand Buddhist verses,
But in after days, how shall I show this to others?

“A torrente do rio no vale é a língua longa e larga de Buda;
Não são as cores das montanhas Seu Corpo Imaculado?
De noite eu ouvi os 84000 hinos Budista,
Mas como revelar isto a outros nos dias que virão?”

Esse é o mesmo problema do poeta, transmitir alguma coisa do que ele viu, na verdade transmitir, o poder de ver, a vida produtiva que constitui a parte essencial daquilo que aparece em palavras, rimas e ritimo.

Temos essa mesma identidade de poeta e santo no verso de Sotôba no qual ele descreve sua experiência nas montanhas de Ro,

Misty rain on Mount Ro, the incoming tide at Sekkô, –
Before you have been there, you have many regrets;
When you have been there and come back,
It is just simply misty rain on Mt. Ro, the incoming tide at Sekkô.

Chuva sombria sobre o Monte Ro, maré alta em Sekkô, –
Antes de chegar lá, você se arrepende,
Depois de ir até lá e retornar,
É só chuva sombria sobre o Monte Ro, e a maré alta em Sekkô.

A experiência de Sotôba, o homem, é mais profunda do que se possa imaginar, mas é também aquela do poeta Sotôba. A diferença entre os dois é que a experiência poética pode ser, e geralmente é, restrita à uma área da mente que lida somente com coisas específicas, enquanto que àquela do homem iluminado se expande quer queira quer não por toda personalidade, a atividade completa. Em Sotôba temos a união do homem e do poeta, e de qualquer ponto de vista, sua completa experiência pode ser assumida. Os picos vistos através de uma chuva fina como a fumaça – o poeta entende isso como uma divindade manifesta; água extravazante do riacho é o próprio Deus, mas somente se percebido assim imediatamente; quando existe uma tênue separação entre eles, entre a coisa e Deus, entre ele e Deus, temos uma fenda intelectual que nenhuma paixão consegue unir. Quando pensamos que é assim, não é, e nenhuma força de pensamento conseguirá fazê-lo, porque isso é assim como resultado do imediatismo da nossa percepção. Além disso, quando essa fatuidade (esse “assim-mismo”) das coisas é entendido, ele é entendido com êxtase, mas, no momento que ele se torna uma experiência corriqueira, e perde seu primeiro momento de surpresa, aquele mundo recém-criado se torna o mundo corriqueiro em que vivemos, mas não aquele mundo do homem prosaico, não-poético, não-iluminado, destituído de religião ou poesia. É isso que Sotôba quer dizer quando fala que essas montanhas nubladas e a maré, isso não tem nada especial ou for a do normal. As pessoas que vivem no Céu, aqueles que possuem uma paz sem cobiça, que olham para as coisas sem interesse próprio, tais pessoas acham que suas vidas são totalmente normais e tediosas.

Para o leitor, todo haikai é um kôan, uma indagação no Zen, uma porta aberta que parece fechada, levando a -? A nada e a lugar nenhum, pois a porta é o que leva para dentro e para fora. Nem mesmo é diferente daquele que passa por ela, daquele que não tem nenhuma existencia real. Tudo que nos confronta é um kôan, um teste que fatalmente somos reprovados ou aprovados, coisas do passado, presente e futuro, coisas perto e coisas longe, reais e irreais, abstratas e concretas. E todas essas coisas são poemas em si, como aqueles lírios secos artificiais, que desabrocham quando mergulhados na água da mente. Damos às coisas a sua vida, e elas nos dão a nossa vida.

Não devemos ser nem escravos nem senhores das coisas. Hoje é o Ano Novo, e quando sairmos em direção ao poço ao alvorecer e vermos os raios de sol cintilando na água derramada no balde, diremos:

Na água que eu apanho
Reluz o início
Da primavera.

Mas

Todo dia é um Bom Dia,
ou como se expressa o poeta:

Esse Dia de Ano Novo
Que finalmente chegou, –
É somente um dia.

O reflexo da luz na água não é diferente do das outras manhãs. Ocilamos entre o sentimento, de que é particularmente significativo e luminoso, e o entendimento de que não é. Retenha os dois; não separe o que é dado daquilo que damos. Tudo é o que é, mas tudo é maravilhoso. Tudo é lei, mas somos livres. Por um lado, as coisas são o que são:

O mar era molhado como molhado é o mar,
A areia era seca como seca é a areia.
Não se via uma só nuvem, porque
Não havia nuvem no céu:
Nenhum pássaro voava sobre nós –
Não haviam pássaros para voar.
Por outro lado, nada é como parece ser, tudo é descontroladamente improvável e contraditório. Sentimos uma profunda afinidade espiritual com o Cavaleiro Branco:

Ele disse: “Eu saio à caça dos olhos do hadoque
Entre as flores de brilho azul,
E os transformo em botões de colete
Na noite silenciosa.

Às vezes trabalho por pão com manteiga,
Ou faço armadilhas para pegar carangueijos,
Às vezes vasculho o verde outeiro
À procura de rodas de carruagem.”

Sentimos com Puck:

E nada me agrada mais que um acontecimento contrário à razão.

Ou seja, as coisas são imprevisíveis, únicas e sem lei. Porém, as coisas são simplesmente o que elas são, sem nenhum significado oculto. As coisas são infinitas em significância; mas elas também são decepcionantes, elas são finitas e limitadas. Mas no fundo, no âmago de nossa existência não desejamos nada, nem mesmo que as coisas devessem ser como são. Pois toda nossa aspiração e aversão, nosso instinto mais profundo é:

New Year’s Day;
The hut just as it is,
Nothing to ask for. Nanshi

Dia de Ano Novo;
A cabana exatamente como ela é,
Não preciso de nada.

Momentos de revelação acontecem quando menos se espera, espontaneamente, e para a maioria dos homens, passa desapercebida e é esquecida:

Às vezes, quando a alma menos pensa na revelação, quando ela menos a deseja, Deus a toca divinamente, trazendo à tona determinadas lembranças Dele. Às vezes também, os toques divinos acontecem repentinamente, mesmo quando a alma está absorvida por outra coisa, e ocasionalmente, num momento banal.

The scissors hesitate
Before the white chrysanthemums,
A moment.

A tesoura hesita
Diante do crisântemo branco,
Um instante.

Ah, grief and sadness!
The fishing-line trembles
In the autumn breeze.

Ah, pesar e melancolia!
A linha de pesca treme
com a briza de outono. Buson

Essa percepção da vida das coisas pode surgir do menor contato físico, como por exemplo, um simples toque, uma leve sensação de afeto e resiliência:

“Ela parou, como se estivésse pensando, enquanto suas mãos repousavam sobre o pescoço arcado do cavalo. Aos poucos, em sua alma jovem e inquieta, um discernimento antigo parecia lhe inundar a mente”. (St Mawr)

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